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Pesquisadores obtêm tijolos a partir de resíduos de gesso, porcelana e cerâmica

Alunas do ProFis estão entre autores do trabalho, que foi publicado em revista internacional

Por Luiz Sugimoto – Jornal da Unicamp

 

A reciclagem de resíduos de gesso da construção civil faz parte de uma linha de pesquisa conduzida há duas décadas pela professora Gladis Camarini, na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Unicamp. O resultado mais recente deste trabalho é a produção de tijolos a partir de gesso e resíduos de cerâmica e de porcelana, o que mereceu artigo na Construction and Building Materials, revista de impacto na área. “Desde 1999 temos avaliado a reciclagem de gesso de várias maneiras, visando obter um produto adequado para a construção, com baixo consumo energético e bom desempenho tanto mecânico como em relação à sua durabilidade. Os trabalhos provaram a reciclabilidade desses resíduos mantendo sua composição química, sendo possível reaproveitar o mesmo material várias vezes”, explica a docente.

O que também merece ser destacado sobre o artigo é que entre os autores estão Janaína Domingos de Souza e Sofia Campos, que quando da pesquisa eram alunas de iniciação científica do ProFIS – Programa de Formação Interdisciplinar Superior, voltado a egressos do ensino médio em escolas públicas. Ambas acompanharam todas as etapas da pesquisa, inclusive os ensaios especiais, sob a tutela de dois alunos de doutorado, Rodrigo Henrique Geraldo e Luiz Flávio Reis Fernandes. Foram usados gesso comercial e reciclado, com a incorporação de resíduos de cerâmica vermelha e de isolador térmico de porcelana, para se chegar a um produto de maior resistência mecânica com aplicação em edificações.

Segundo a orientadora Gladis Camarini, transformar resíduos gerados pela atividade humana em novos produtos é uma importante ferramenta para a busca da sustentabilidade e, na construção civil, esta é uma preocupação emergencial devido ao grande volume de resíduos poluentes. “Temos impactos importantes no meio ambiente, a começar pela extração da matéria-prima, pois para produzir cimento, é preciso calcário e argila e, para o gesso, a jazida de gypso. Segundo, porque temos segmentos da construção que apresentam enorme desperdício, sem muito controle sobre os resíduos – grandes construtoras ainda reaproveitam uma parte, mas as outras empresas não têm o hábito da reciclagem e jogam tudo no ambiente.”

A docente da FEC afirma que o foco no reaproveitamento do gesso tem sido premiado por diferentes resultados e ganha importância proporcional à sua utilização cada vez maior como substituto da argamassa convencional no interior das obras. “O gesso tem servido não só para revestimento, mas também para produção de componentes como blocos, placas e tijolos para paredes divisórias – que podem ser erguidas e desmanchadas quando se quer mudar o ambiente, a baixo custo. Construtoras já oferecem apartamentos sem paredes divisórias, prevendo que o proprietário planeje o espaço conforme as necessidades da família, com placas e também blocos de gesso.”

A professora Gladis Camarini e as alunas Sofia Campos e Janaína Domingos de Souza; no destaques, os tijolos. Foto: Antoninho Perri (Jornal da Unicamp)

Uma estimativa de Gladis Camarini é de que, em 2012, o Brasil coletou mais de 35 milhões de toneladas de resíduos da construção, que representam cerca de 55% do total de resíduos sólidos urbanos. A região Sudeste gerou mais de 18 milhões de toneladas/ano e,somente a cidade de São Paulo, responde por cerca de 100.000 toneladas/ano de resíduos de gesso – com uma pequena fração recolhida por algumas empresas visando, por exemplo, a produção de gesso acartonado (para acabamento, em que se mistura papel cartão). “As jazidas de gypso estão no Norte e Nordeste, sendo as de Pernambuco as mais exploradas. O centro consumidor é São Paulo e, apesar do custo de transporte, trata-se de um produto barato, não havendo uma utilização racional nas obras, Uma pesquisa nossa mostra que, do gesso que entra numa construção, entre 40% e 50% saem como resíduos.”

A pesquisadora aponta problemas ambientais sérios nos locais de extração, já que o gesso é contaminante do solo e, descartado em qualquer lugar, pode atingir o lençol freático – na verdade, os resíduos deveriam ser depositados em aterro especial, o que nem sempre é cumprido devido ao custo elevado. “No Polo Gesseiro do Araripe [PE], trabalhadores e moradores sofrem com a poeira, por se tratar de uma rocha que é dinamitada e moída. Na fábrica temos o chamado ‘gesso de varrição’, que o trabalhador passa o dia varrendo e aspirando o material particulado. Os moradores das cidades do entorno também respiram a poeira, que obviamente afeta a saúde.”

A professora da FEC explica que, na pesquisa, as amostras de tijolos de gesso misturado a resíduos cerâmicos e de porcelana – igualmente descartados em grande quantidade – foram submetidas à pressão de uma tonelada (10kN), e com adição de pouca água, o que também é favorável em termos de produção. “Os resultados indicaram que o processo de compactação modifica a microestrutura do produto final e fornece um ganho significativo de resistência a compressão e flexão, gerando valores consideráveis em produtos contendo 50% de resíduos. São blocos estruturais e de vedação para construção, efetivamente, e não para acabamento.”

O produto obtido, assegura Gladis Camarini, é perfeitamente comercializável, podendo abrir um nicho ainda inexplorado de um mercado que normalmente recicla resíduos de concreto e de cerâmica – chamados de resíduo cinza e resíduo vermelho. “O problema é que ainda não temos usinas que reaproveitem o gesso, o que seria um primeiro passo. Em vez de colocado em aterro, esse material precisa ser recuperado como um produto nobre, que pode ser calcinado inclusive em baixa temperatura: se a produção de cimento se dá em aproximadamente em 1.450 graus, o gesso pede entre 150 e 160 graus. Falta também uma política pública para que esta reciclagem aconteça. É uma pena, pois temos muito conhecimento acumulado.”

Mão na massa

Difração de raios-X, análise termogravimétrica, medições de resistência mecânica, imagens ao microscópio eletrônico de varredura compuseram os ensaios especiais que jamais passaram pela imaginação de Janaína de Souza e Sofia Campos, alunas de iniciação científica. “Ficamos no laboratório colocando a mão na massa, separando amostras e participando da moldagem, acompanhamento dos ensaios e inclusive da análise dos resultados. Entramos na graduação já conhecendo os materiais e a parte científica, sabendo como fazer um relatório ou uma citação. O ProFIS nos dá essa carga teórica, mas foi no laboratório que colocamos tudo em prática”, conta Janaína, que está no último ano do curso de tecnologia em construção de edifícios e pretende seguir no laboratório em seu mestrado.

Sofia, por sua vez, optou pela arquitetura, para onde levou ensinamentos da iniciação científica, como de materiais e do conceito de compressão. “Quando entrei no curso de arquitetura, já foi com outra cabeça, conhecendo um pouco da Unicamp e com uma bagagem de dois anos de pesquisa. Fez muita diferença, porque os alunos que ingressaram comigo ainda estavam aprendendo o que era pesquisa acadêmica, como redigir uma resenha. Achei a experiência na iniciação científica muito boa e sinto falta de fazer pesquisa.”

A professora Gladis Camarini observa que é possível combinar os resíduos de gesso com outros materiais, ou simplesmente com solo, visando produzir tijolos e blocos para pessoas de baixa renda – como fez, quando aluna de doutorado, a arquiteta Miriam Morata, que possui o blog “Recriar com Você”, ensinando como construir uma casa popular sustentável a um custo de 10% do financiamento do programa Minha Casa Minha Vida. “Nosso trabalho com gesso continua, mas já estamos pesquisando a reciclagem do fosfogesso para aplicação na construção civil”, adianta. O fosfogesso é um resíduo da indústria de fertilizantes, produzido em larga escala no Brasil e, da mesma forma que o gesso, é contaminante do ar e principalmente de águas subterrâneas.

 

Edição de imagem: Luiz Paulo Silva

Jornal do Sudoeste

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