Quais são os impactos do isolamento social no meio ambiente?

Por Assessoria de Comunicação da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

 

Ruas vazias, comércios fechados, fábricas e indústrias paradas. Essas são algumas consequências do isolamento social, medida de contenção do avanço do novo coronavírus que foi implementada na maior parte do mundo após o início da pandemia da Covid-19. O que muitos não sabem é que os efeitos dessa medida também têm impactado o meio ambiente.

Segundo Raymundo José de Sá-Neto, professor de Ecologia da Uesb, a redução da atividade humana e econômica, devido às restrições da quarentena, ocasionou mudanças nas paisagens e no comportamento de animais ao redor no mundo. “A própria população está percebendo isso. Na Índia, o povo está avistando o Himalaia em cidades que não registrava isso há 30 anos”, lembra o professor.

O isolamento social, para evitar a disseminação do coronavírus, também tem impactado o meio ambiente. A redução da atividade humana e econômica provocou mudanças nas paisagens e no comportamento de animais ao redor no mundo.

Mas o que realmente tem chamado a atenção de especialistas nesse período é a redução da poluição atmosférica e a queda na emissão de gases do efeito estufa em diversos países. Segundo estimativas da Organização Meteorológica Mundial (OMM), a diminuição no fluxo de automóveis e na produção industrial pode provocar uma queda de 6% nas emissões globais de dióxido de carbono (CO2) em 2020.

O outro lado 

No entanto, ao contrário da tendência mundial, um estudo realizado pelo Observatório do Clima mostra que, no Brasil, a previsão é de que as emissões de gases do efeito estufa deem um salto. Ainda de acordo com a pesquisa, o avanço do desmatamento da Amazônia, mesmo durante a pandemia, e as atividades agropecuárias provocarão um aumento de 10% a 20% nas emissões de gases no país.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento da Floresta Amazônica atingiu novo recorde com um aumento de 55% nos primeiros quatro meses deste ano, em comparação ao mesmo período de 2019. Para o professor Raymundo, a falta de fiscalização durante o isolamento social é o principal fator desse índice. “Aqui no Brasil, o isolamento e o descaso do governo brasileiro com o meio ambiente permitiu o aumento do desmatamento da Amazônia em relação ao ano passado. Sem fiscalização e sem pessoas para conter e mostrar o desmatamento, é problemático”, afirma.

De acordo com a professora Daise Cardoso, atual coordenadora do curso de Engenharia Florestal da Uesb, o avanço no desmatamento da Amazônia tem sido a maior preocupação ambiental nesse período. “Esse processo envolve o uso de maquinário pesado que consome combustível fóssil e emite gases de efeito estufa e, muitas vezes, está associado ao uso do fogo para ‘limpar’ o terreno, produzindo mais emissões de gases”, explica.

 

 

A professora também ressalta que o avanço descontrolado da destruição das florestas pode elevar as chances de aparecimento de outros vírus e futuras pandemias, já que a perda de habitat faz com que animais silvestres, possíveis portadores de patógenos, busquem novas áreas e entre em contato com espécies já domesticadas e, até mesmo, com os seres humanos.

Além disso, para Daise Cardoso, o isolamento social também tem causado outros impactos ambientais negativos, como o aumento do consumo de energia elétrica nas residências e da produção de lixo, principalmente o hospitalar. “A geração de resíduos é um dos maiores problemas desta pandemia. Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), deveremos observar um aumento de 15 a 25% na geração de resíduos domésticos e entre 10 a 20 vezes dos resíduos hospitalares. No caso dos resíduos domésticos, esse aumento significa diminuição do tempo de vida útil dos aterros sanitários e lixões”, destaca a docente.

Já para o professor Raymundo, o aumento na produção de lixo doméstico pode não ser tão negativo, pois, em paralelo, houve uma diminuição na produção dos resíduos industriais, que são mais perigosos. Em contrapartida, ele se preocupa com a possível paralisação das coletas seletivas e, também, alerta sobre o cuidado necessário no descarte dos resíduos hospitalares. “O aumento do lixo hospitalar é uma realidade e é um dejeto muito perigoso. É necessário que a indústria de descarte consiga atender a essa nova demanda, mas é complicado em uma rede de saúde colapsada”, comenta.

Nova “normalidade

Muito tem se falado a respeito de um novo “normal” pós-pandemia. Alguns cientistas acreditam que as mudanças socioambientais observadas até então podem ser duradouras, já outros têm sido mais pessimistas. Para Daise, os benefícios do isolamento social ao meio ambiente são apenas pontuais e temporários. Para serem observados a longo prazo, seria preciso mudanças nos padrões de consumo.

“Quanto mais consumimos, mais dependemos de novas áreas de produção, agravamos a degradação de ambientes já sensíveis, produzimos mais resíduos, colocamos a saúde do planeta e da sociedade em risco. A pandemia escancarou o fato de tudo estar conectado. Nosso comportamento individual impacta a sociedade que vivemos. Somente quando passarmos a pensar coletivamente, mesmo agindo individualmente, é que conseguiremos vislumbrar uma saída”, reforça.

 

Foto de Capa: Vitória da Conquista durante o isolamento/ Foto: Brenno Luis.

Jornal do Sudoeste

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