Especialista afirma que Plataformas Digitais utilizam mecanismos capazes de induzir dependência comportamental e pede regulamentação mais rígida para proteger crianças e adolescentes.
ASCOM -IMF PRESS GLOBAL (mf@pressmf.global)
As redes sociais deveriam estar sujeitas a regras semelhantes às aplicadas ao tabaco, às bebidas alcoólicas e aos jogos de aposta. A avaliação é do Neurocientista Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, que defende a criação de limites legais para reduzir o impacto das plataformas digitais sobre crianças e adolescentes.
Segundo o pesquisador, o debate deixou de ser apenas tecnológico e passou a envolver saúde pública, desenvolvimento cerebral e proteção da infância.
“As redes sociais utilizam mecanismos que estimulam o cérebro a permanecer conectado pelo maior tempo possível. O problema não é a tecnologia em si. O problema é quando o modelo de funcionamento explora processos cerebrais ligados ao reforço do comportamento, principalmente em crianças, cujo Cérebro ainda está em desenvolvimento”, afirma Fabiano.
O especialista explica que notificações, recompensas imprevisíveis, vídeos em sequência e sistemas de recomendação ativam circuitos cerebrais relacionados ao aprendizado por recompensa. Esses mecanismos aumentam a probabilidade de o usuário repetir o comportamento, mesmo quando já não existe um benefício objetivo.
“Quando observamos álcool, tabaco e jogos de aposta, encontramos limites de idade, restrições de publicidade e campanhas permanentes de conscientização. A pergunta é simples. Por que produtos que disputam a atenção de crianças durante várias horas por dia ainda recebem uma regulamentação muito mais branda?”, questiona.
Para Fabiano, a comparação não significa afirmar que as redes sociais produzam os mesmos efeitos biológicos das drogas químicas. O ponto em comum está na capacidade de estimular padrões de uso compulsivo.
“A dependência comportamental também modifica hábitos, reduz o controle inibitório e altera a relação da pessoa com a recompensa. Isso merece atenção, principalmente durante a infância e a adolescência, fases em que o córtex pré-frontal ainda está em maturação.”
O debate ganhou força em diversos países. Na Europa, Governos e Instituições ampliaram a fiscalização das grandes Plataformas Digitais e passaram a discutir medidas para reduzir riscos aos menores de idade, incluindo maior transparência dos algoritmos, mecanismos de verificação etária e limitações ao uso de determinados recursos considerados potencialmente nocivos.
No Brasil, a discussão ainda avança de forma gradual. Para o pesquisador, o país poderá enfrentar o mesmo desafio vivido anteriormente com o cigarro.
“No passado, fumar era socialmente aceito. Com o avanço das evidências científicas, surgiram restrições que hoje parecem naturais. Acredito que as redes sociais caminham para um processo semelhante. Não se trata de censura. Trata-se de estabelecer mecanismos de proteção proporcionais ao potencial de risco.”
Fabiano defende que futuras regulamentações incluam verificação efetiva de idade, restrições ao uso de estratégias de retenção direcionadas ao público infantil, maior transparência sobre o funcionamento dos algoritmos e ferramentas que permitam controlar o tempo de exposição.
“O objetivo não é impedir que as pessoas utilizem redes sociais. O objetivo é impedir que modelos de negócio sejam construídos explorando vulnerabilidades do Cérebro em desenvolvimento. Quando existe evidência de risco, proteger a população passa a ser uma responsabilidade coletiva.”
Foto: Divulgação/Imf Press Global




