RELÓGIO DE PONTO

FUNCIONÁRIO REBELDE:

Uma pessoa fora convidado para trabalhar em uma empresa, como chefe administrativo da oficina mecânica, era uma revenda de automóveis. Tinha ligação direta com os mecânicos, os quais o tratavam pelo apelido, diminutivo por derivação do nome, e faziam outras brincadeiras, denotando intimidade.

Nessa empresa, havia um funcionário que trabalhava como apontador de serviços. A sua função restringia-se a operar um relógio de ponto, cronometrando o tempo da execução do serviço, para a devida cobrança do cliente, que pagava por hora trabalhada. Era um trabalho repetitivo e contínuo. Com isso, o apontador acomodou-se. O seu labor era considerado de pouca importância profissional, não precisava de habilidade para sua realização.

Como esse trabalho tomava pouco tempo do executor, então o seu novo chefe atribuiu-lhe mais outra atividade. Por rebeldia e inconformado com o salário que recebia, não aceitou acumular mais uma função, dizendo-se discriminado e não valorizado financeiramente.  Mostrou a carteira profissional que fazia o registro de apontador, portanto, não lhe cabia executar outro serviço sem a devida remuneração.

O chefe, para não ficar desmoralizado perante aos outros empregados do escritório, levou o caso ao conhecimento da diretoria, aliás, ao diretor administrativo. Este, ao analisar o problema, deu poderes ao chefe do escritório para decidir por si próprio, conforme o seu entendimento e acrescentou: “O homem é todo seu. Faça o que melhor lhe aprouver, pois, no escritório, quem manda é o chefe”.

 Diante do acontecimento, a atitude tomada foi a da demissão do indivíduo rebelde. Embora o fizesse a contragosto, foi a maneira encontrada de se impor e demonstrar a sua autoridade.

Preocupada, a esposa do indigitado procurou o diretor para justificar a atitude do marido, porém ele lhe disse não interferir na decisão do seu comandado, e deixava a seu critério resolver o problema. Diante dessa resposta, ela procurou o dirigente do escritório e, chorosa, contou-lhe a ladainha:  disse que o emprego era imprescindível para a manutenção da família, que o marido era pai de três filhos, portanto dependia do trabalho,  e pediu que o interlocutor, reconsiderasse a decisão de demitir o esposo, pois ele estava disposto a executar o que lhe fosse solicitado. Porém, a deliberação estava tomada. Não havia retorno. Era fato consumado.

“Há mal que vem para o bem” diz o ditado popular. O destino encarregou-se de despertar no indivíduo a coragem que estava anestesiada pelo comodismo de um labor contínuo, repetitivo e sem qualificação. Esse trabalho não lhe despertava a intelectualidade nem a criatividade. Acomodou-se. Contudo, diante da situação, reagiu, por sua determinação e necessidade de crescer na vida, e amparar a família, empregou-se em uma empresa de peças de automóvel e, por sua diligência, assumiu a administração como gerente da mesma.   O incentivo da esposa, foi determinante nesse sentido.

Antônio Novais Torres

Antônio Novais Torres é comerciante aposentado, membro fundador da Academia de Letras e Artes de Brumado, membro do Conselho da Cidadania de Brumado, ex-membro do PMDB e PTB e membro do Conselho Editorial do Jornal do Sudoeste.
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