“Todo dia era Dia de Índio”: a importância da escola nas lutas indígenas

Por Ascom/ Uesb

 

A frase que dá título a esse texto é também o nome da música de autoria do cantor e compositor Jorge Ben, escrita em 1982 e interpretada por Baby do Brasil. Para muitos, ela é uma homenagem ao Dia do Índio. No entanto, mais do que isso, a música revela como os povos indígenas viviam, como eram suas relações com a natureza e de que forma se deu a perda de espaço para os colonizadores portugueses após sua chegada em 1500.

Mesmo com uma data para comemorar seu dia, os povos indígenas precisam, constantemente, lutar na defesa e demarcação dos seus territórios e, também, na preservação da cultura, o que significa respeito a todo seu povo. Nesse sentido, a escola tem sido central para o fortalecimento dessas lutas, como afirma o professor José Valdir Jesus de Santana, do Departamento de Filosofia e Ciências Humanas (DFCH) da Uesb. Pesquisador do assunto, o docente desenvolveu a pesquisa “A letra é a mesma, mas a cultura é diferente: a escola dos Tupinambá de Olivença, Bahia”, que se tornou uma tese de doutorado.

Defensor da educação e do desenvolvimento escolar como base na construção de identidade e formação de qualquer cidadão, o professor centrou seus estudos nos povos Tupinambá de Olivença, na Bahia, e na relação dessa comunidade com a escola. “Tivemos como objetivos compreender como e por que os Tupinambá de Olivença fazem escola e como ela tem se tornado central na produção de pessoas fortes na cultura, na atualização e produção de parentesco e no estar na cultura, como costumam afirmar os Tupinambá”, explica o pesquisador, que levou um ano e quatro meses em campo para o desenvolvimento do estudo.

O resultado da pesquisa foi celebrado pelos índios Tupinambá de Olivença que viram, nos estudos realizados, a reafirmação de todo o processo histórico e o fortalecimento de seu povo. “A nossa reorganização como povo, o nosso reconhecimento étnico se deu através da nossa organização educacional. A escola sede serviu, naquele momento, e serve até hoje, para o nosso fortalecimento como povo, como índio. O trabalho do professor retrata isso muito bem”, reconhece Maria Jesuína Barbosa dos Santos, vice-diretora do Colégio Estadual Indígena Tupinambá de Olivença e cacique da Aldeia Mãe Olivença.

Para a vice-diretora, a escola é o instrumento de luta para continuar ocupando espaços na sociedade. Por meio dela, a história e a cultura daquele povo é transmitida entre gerações, perpetuando esse legado através de práticas educativas. “Nós utilizamos a educação como uma ferramenta de sobrevivência através dos espaços educacionais em que trabalhamos com nossos alunos. A gente fortalece nossa cultura quando transmitimos para eles e eles passam a refletir nas práticas que fazem dentro da comunidade”, conclui.

19 de abril – Anualmente, desde 1943, o país celebra o Dia do Índio em 19 de abril. A data foi instituída, via decreto de lei, pelo então presidente Getúlio Vargas, 443 anos após a chegada dos colonizadores no Brasil. Mas é importante destacar que todo dia é dia dos índios reafirmarem sua luta por direitos.

Nesse sentido, a data passa a ser instrumento para resgatar memórias, ratificar saberes ancestrais, valorizar a comunicação. Reconhecer a importância das escolas indígenas e o poder transformador da educação escolar é dever de todo cidadão. Aqui, se faz necessário dizer que não é preciso ser indígena para lutar e defender suas causas. “Devemos levar a sério os povos indígenas de nosso país e as suas lutas e demandas, seja pela demarcação de seus territórios ancestrais, por acesso à saúde e educação etc.”, ressalta o professor José Valdir.

Com a proximidade do dia 19 de abril, os povos indígenas costumam ser lembrados nos espaços escolares. No entanto, o que nunca deve ser esquecido, como reforça o pesquisador, é que muitos índios estão resistindo por meio das escolas. “Os [povos] Tupinambá fazem escola para resistirem e resistem fazendo escola. Estudar é resistir. As ações empreendidas pelos Tupinambá têm um caráter educador para toda a sociedade brasileira, para a academia, para a nossa Universidade”, destaca.

Para Maria Jesuína, é preciso lembrar dos povos indígenas não só no dia 19 de abril, mas em todos os dias do ano. “Estamos inseridos na sociedade. Nós temos uma história, uma cultura, e elas precisam ser respeitadas, valorizadas, reconhecidas e divulgadas. As pessoas precisam ter interesse em conhecer mais das populações indígenas, porque só através do conhecimento é que vai poder se construir o respeito”, desabafa a vice-diretora e cacique.

 

Foto de Capa: Divulgação.

Jornal do Sudoeste

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