Tradição

“Além das aptidões e das qualidades herdadas,
é a tradição que faz de nós aquilo que somos.”
Albert Einstein

Uma questão que passeia insistentemente no imaginário dos educadores de um modo geral é quanto à melhor maneira de aproximar aquele que quer aprender, daquilo que será aprendido. Noutros termos, o sujeito do objeto de conhecimento. Tal relação de cunho epistemológico permeia a vida não somente de educandos e educadores formais, e aqui chamamos de formais aqueles que habitam o seio escolar, mas a todos e todas que travam com o mundo uma relação de coexistência interdependente, ou seja, vive e faz viver, produz e é produzido por este mundo.

Assim, identificamos na questão levantada um embrião, a pré-ocupação, a saber, a tentativa reflexiva de apoderar-se previamente da solução deste problema, inerente a todo ser humano que se encontra frente à crise pela questão instaurada. Mas como resolvê-la? Como atender aos anseios dos educadores e dos educandos?  Numa época em que nos acostumamos a ouvir jargões do tipo, “Os alunos já não são mais os mesmos”, “No tempo em que eu era aluno…”, com um saudosismo que beira a obviedade, tendo em vista que os alunos não podem ser os mesmos, e ainda bem que não são, e no tempo que eu era aluno, o mundo não era o mesmo de agora, assim como a economia, os valores morais, as relações interpessoais, a comunicação, a técnica e a tecnologia, a ciência, enfim tanto os nossos alunos vistos por uma lente do passado, quanto nós mesmos somos todos féretros de um pretérito-mais-que-perfeito que pretendera, sem sucesso, voltar à vida.

Outros ávidos pelas pedagogias ultramodernas lançadas recentemente no mercado, lembrando que este recentemente é a todo o momento, costumam dizer, “Esta prática está ultrapassada” ou “Atualmente a educação evoluiu”, como se aquilo que foi feito em tempos anteriores tivesse perdido seu mérito exclusivamente em função do espaço que o separa do momento presente, ou o que é pior, a teoria da moda ditando as regras do fazer pedagógico.

Esta incerteza acomete inevitavelmente os profissionais da educação de um cepticismo assombroso, que pode estagnar, paralisar, reter qualquer fluxo, mesmo que organicamente contínuo, de esperança nas veias dos educadores que sintetizam sua indecisão na interrogação, “Devo fazer o tradicional ou a novidade em educação?”

Neste instante falo direto aos meus amigos professores sem hesitação, a melhor pedagogia é aquela que dispensa o arcaico e a novidade, não temo em afirmar que o tradicional e exatamente pelo motivo de ter se tornado tradicional é que comprovou a sua validade, deve ser e continuar a ser aplicado, ao tempo em que necessitamos por conta de todas as mudanças as quais somos abalroados cotidianamente, encontrarmo-nos com o novo.

Chamo a atenção que não falo aqui da novidade, mas daquela alteração imposta pela própria vida àqueles que querem e, sobretudo almejam continuar vivos. O novo não é efêmero, mas sim aquilo que se fundou em bases seguras antes de emergir, enquanto a novidade brota a todo tempo da experiência ignóbil de um fazer alheio à teoria.

Dito isso, olho pra terra que a muito chamo de minha, sentindo uma profunda ternura ao poder ver pelos caminhos traçados por vários de meus contemporâneos, a saga da esperança. O exercício do magistério por mais que alguns julgam ser inglório, afirmo veementemente que é o que ainda sustenta a linha entre a racionalidade e a barbárie. Fundado no princípio da esperança que visa não a espera, em sua imobilidade mórbida do aguardo, mas no ato de esperançar, animando o ser a produzir o seu próprio destino.

O estado plácido em que se encontra a nossa educação talvez não seja capaz de demonstrar o porvir, a condição nevrálgica da nossa educação, que vive em seus educadores, nos pais, nos alunos, nos governantes, a ansiedade de tornar material aquilo que já figura em pensamento.

Brumado em seus 131 anos de história e vida, nunca desfrutou de uma tão real possibilidade de disseminar o vírus chamado educação, contaminando a todos e fazendo curar, por mais paradoxal que possa parecer, da doença ignorância.

A filosofia pode nos ajudar a melhor perceber este estado grávido em que encontramo-nos, abrindo veredas e horizontes como no pensamento de Emmanuel Kant, que afirma: “É no problema da educação que assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade.”

Adriano Santos é professor de Filosofia, pós-graduado em Filosofia Contemporânea

Júlio César Cardoso

Júlio César Cardoso

Bacharel em Direito e servidor federal aposentado. Balneário Camboriú-Santa Catarina.
Categorias