Uma civilização que se perdeu

 Há muitos anos, após debater num programa de rádio com importante líder comunista daqui do Rio Grande do Sul, prolongamos nossa conversa fora dos microfones. Subitamente, ele me diz: “Puggina, tenho inveja de vocês cristãos”. Diante de minha surpresa, explicou que reconhecia ser muito mais suave obedecer à lei de Deus do que à lei dos homens. Que o Estado e suas leis muitas vezes transbordavam para o arbítrio e para a violência e que a guia moral da religião parecia mais natural para contenção das paixões humanas.

Ao seu modo, ele estava manifestando uma compreensão daquilo que se denomina Direito Natural, ou intuindo a universalidade da lei moral, ou a influência positiva da moral judaico cristã, ou reconhecendo méritos na civilização ocidental cristã, ou no cristianismo cultural, ou algo de cada um desses fatores.

Pois é… Essa conversa ocorreu há tanto tempo! Mas se há uma constatação que se pode fazer sem medo de errar é que já então a lei de Deus vinha sofrendo acelerado “revogaço” em todo o Ocidente outrora dito cristão. Esse foi o caminho encontrado por aqueles que tinham para a humanidade um projeto de poder que não podia conviver com a prevalência de Deus, da família, do mercado e do sentimento de pátria na cultura dominante. O Estado e apenas ele tinha que se sobrepor de modo absoluto, a tudo e a todos.

Como aconteceu? É tão fácil entender! O que se convencionou chamar de cristianismo cultural era um subproduto da prática religiosa cristã. Descrevia aquilo que meu interlocutor referido no início deste artigo, constatava e, ao seu modo, atribuía valor. Decorria da vida em conformidade com a fé. Da oração, dos sacramentos, da vida piedosa e virtuosa, do amor a Deus, ao próximo e a si mesmo. Quando estes elementos essenciais da religião que fundava a cultura ocidental foram perdendo sentido e sendo relativizados, restou uma corruptela do cristianismo e uma corruptela do cristianismo cultural, cujo resultado grita nas estatísticas sociais e nas práticas políticas.

Claro, escrevo como cristão e, neste particular, como conservador. Muitos hão de sustentar que vamos bem e progredimos. Essa divergência está no foco das disputas em curso na vida social, política e econômica da sociedade brasileira.

Percival Puggina

Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras e Cidadão de Porto Alegre, é arquiteto, empresário, escritor e titular do site Conservadores e Liberais (Puggina.org); colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Membro da ADCE. Integrante do grupo Pensar+.
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