A trilha do capeta

Em nome da defesa do estado de direito passaram a fazer oposição e a interferir no governo. Conceberam um fantasma e alegando combatê-lo agiram como a oposição real a um governo real. Restringiram liberdades, instalaram a censura e nos jogaram num estado de exceção. Agora enfrentam as consequências de todos os excessos praticados. Os manés, descobriram, são seres humanos!

Sei o que digo quando falo em estado de exceção porque leio a Constituição, já vivi sob regime autoritário, já vivi em tempos de liberdade, vi e senti o totalitarismo em Cuba. Percebo as diferenças. O que torna ainda mais sombria nossa situação é o fato de a imprensa dita “tradicional” ter largado de mão sua longa defesa da liberdade de opinião e passado a exaltar as excepcionalidades do regime desregrado que nos está imposto.

Repito: sirvam-nos democracia, liberdades, respeito à Constituição e à vida privada, eleições lisas e justas e estaremos bem atendidos! Afinal, o estado oneroso que custeamos não teria, como obrigação mínima, que nos proporcionar isso?

Só que não é bem assim. Há quem crie os próprios fantasmas. Foram eles que serviram para nos trazer a um estado de exceção e para o perigo iminente de nos transformarmos numa “democracia popular”, nome comercial das ditaduras instituídas por revolucionários de esquerda. Elas podem nascer nas democracias mal costuradas, como as ibero-americanas, contando com apoio, em proporções demográficas, de egressos das cadeias produtivas da educação onde operam os mecanismos de acefalia em massa.

O capeta, só pode ser coisa dele, infiltrou entre nós o mapa desse roteiro, em marcha batida para o abismo. É uma trilha aberta a facão, fora da estrada asfaltada nos tempos do estado de direito, do devido processo, do cada macaco no seu galho. Ao longo dessa trilha foram criados os inquéritos cujo titular opera como um aspirador de prerrogativas, poderes e competências excepcionais. Estou falando de uma dupla trapizonga chamada “fake news” e “atos antidemocráticos”, de conceituação subjetiva, em cujos inquéritos vale tudo para quem acusa e vale nada para quem é acusado.

Se você acha que estou exagerando, acredite: até a OAB Nacional chegou a balbuciar alguma coisa sobre direito de defesa e direitos dos advogados. Alexandre do bem, o Garcia, em artigo de ontem (08/12), escreve sobre o caso do prefeito cujo mandato foi baleado pela fumegante caneta do ministro sniper. Ao final, conclui magistralmente:
Deve ter alguma coisa certa nisso tudo, porque do contrário a OAB iria reclamar. Se não reclamasse, a mídia brasileira reclamaria. Se não fosse a mídia, o Senado brasileiro abriria processo. Mas deve haver alguma coisa além da Constituição que paira sobre nós, e nós não estamos sabendo.

É preciso dar um basta.

Percival Puggina

Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras e Cidadão de Porto Alegre, é arquiteto, empresário, escritor e titular do site Conservadores e Liberais (Puggina.org); colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Membro da ADCE. Integrante do grupo Pensar+.
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