Militarização não é a solução

É impreCionante, como diria o ministro da Educação do nosso país, como a visão autoritária e tacanha do prefeito de Brumado-BA, Eduardo Vasconcelos (PSB), se espraia pelos mais diversos setores da administração pública do município, em especial a Educação. Chama atenção o processo de militarização das escolas públicas municipais.

A notícia de que mais uma escola municipal será militarizada, a Oscarlina de Oliveira Silva, no bairro Dr. Juracy, me espantou e me motivou a escrever uma singela reflexão sobre o modelo educacional adotado pelo município, que envolve gestão e concepção de Educação. Na cabeça dos defensores da militarização das escolas, o baixo rendimento do processo de ensino-aprendizagem está relacionado à falta de disciplina dos alunos. A gestão das escolas também seria um problema, na medida em que falta “pulso” de alguns/as diretores/as. Um modelo hierarquizado e pautado na extrema rigidez do que se deve fazer na escola seria a suposta saída.

Na maioria das escolas militarizadas é imposto um padrão de vestimenta e até mesmo de corte e pintura do cabelo; é também proibida qualquer manifestação de cunho político e mesmo contato físico que denote demonstrações de afeto e carinho. Ou seja, querem que o jovem seja na escola aquilo que ele não é fora da escola, como se isso por si só fosse ampliar seus conhecimentos de matemática, português, etc.

Existe um certo apego e midiatização dos índices acima da média de aprovação de alunos oriundos de colégios militarizados em vestibulares, o que gera um senso comum de que a escolas militarizadas são melhores que as “convencionais”. Mas esses mesmos índices podem muito bem ser alcançados sem a necessidade de se impor aos alunos que se bata continência a um capitão. E isso tem a ver com a forma como a escola se apresenta para o educando: é preciso fazer da escola pública um lugar em que se queira ir para estudar, para brincar, para praticar esportes, para socializar, para aprender a conviver com as diferenças, e não para amedrontar e impor modelos fora das realidades extra-escolares dos educandos.

A instalação do modelo militarizado em escolas da periferia de Brumado já demonstra a visão elitista e preconceituosa do Prefeito: “disciplinar os indisciplinados” é o discurso oficial. Apontam-se as armas e as continências como saída para a aprovação no vestibular, mas desconsideram-se as desigualdades sociais e preconceitos das mais diversas ordens que a população da periferia, em sua maioria negra, sofre diariamente. Faltam projetos de inclusão social, geração de renda e promoção da cultura popular como forma de eliminar os bolsões de pobreza de nossa cidade e consequentemente melhorar os nossos índices educacionais.

A escola que queremos para superar os problemas históricos e estruturais da nação brasileira estimula o pensamento crítico e criativo dos educandos e não ensina apenas o Bê-A-Bá; trata estudantes, professores, diretores, funcionários, pais e mães e a comunidade do entorno como agentes transformadores da realidade local; valoriza o trabalho dos profissionais da educação e estrutura as instalações escolares de maneira a fazer da escola um local de intercâmbio cultural e convívio social; enfim, é uma escola que encara os problemas sociais não com falsas soluções e moralismos provincianos, mas sim, como diria Paulo Freire, com a compreensão de que a Educação é um ato político.

Sendo ato político, o processo do Educar deve levar em consideração as estruturas sociais de classe, racistas e patriarcais, além das amarras ideológicas que conformam um sistema de dominação das elites sobre o povo no plano da cultura, da economia e das relações sociais. O slogan adotado pela gestão brumadense, qual seja, “Educar para Transformar”, não faz sentido com o que se vê na realidade. O que se tem é um processo de “educar” para reproduzir e manter as estruturas sociais de dominação e opressão vigentes. Transformar nunca foi do interesse da classe dominante que dita os rumos políticos do município há quase duas décadas.

Em tempo, repudio também tanto o modelo de militarização proposto por Bolsonaro, quanto o proposto pelo governador Rui Costa. As críticas que cabem às ações do prefeito, cabem também aos dois acima citados. É preciso que educadores, entidades representativas dos profissionais da educação, movimentos populares, pais e mães e sobretudo estudantes se manifestem e proponham um debate sério sobre os rumos da Educação no Município de Brumado, sob pena de cairmos num discurso demagógico que apenas aprofunda o abismo social e fragiliza ainda mais as já capengas estruturas democráticas de nosso país.

Guilherme Ribeiro

Guilherme Ribeiro

Advogado, mestre em Educação e militante do movimento Levante Popular da Juventude.
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