Tem que Saber Cuidar

— Se quiser, eu dou, mas tem que cuidar direito, senão morre! — disse minha avó a mainha enquanto dava a ela uma muda de Bougainville. — E não a fique mudando toda hora não, porque ela não aguenta.

— Mãe, pode deixar, eu sei cuidar de plantas — respondeu.

Numa daquelas caixinhas de leite, com a parte superior cortada, já bem engelhada por conta das regas feitas à planta nesse recipiente, mainha trouxe para casa a sua tão desejada muda.

Sabe, acho que tem coisas que precisa ter vocação para fazer. Que coisa triste é a vida de um animal, um cachorro, por exemplo, que não tem do dono a atenção; algo tão mínimo. Talvez ele, o dono, que nunca teve vocação para cuidar de bicho, o ganhou de um tio cuja cadela pariu de ninhada, e, sem condições de cuidar dos filhotes, doou-os para pessoas próximas. Coitadinhos, correm o risco de, por infelicidade, cair numa casa onde não lhes haverá o mínimo de dedicação.

O mesmo pode acontecer no amor; não é muito diferente do caso do cachorro, está na mesma ordem. Ah, sim, o amor! Isso exige vocação; essa vocação exige doação. Quantos corações não padecem por não serem amados como deveriam. Outros ainda, infelizes que devem ser, padecem por não saber amar.

Mas deixe-me voltar ao caso da muda de Bougainville. Disse isso, da vocação a certas coisas, para dizer que mainha nunca teve vocação para cuidar de plantas. Ela, nas regas, joga um balde d’água nos caqueiros com tanta violência que chega abrir na terra uma cova que daria para colocar outra planta. Eu brigo com ela por isso, ela briga comigo por querer ensiná-la a regar as plantas. Mas vejam que até a água, elemento vital, se não colocada com jeito, com amor-vocação, pode causar destruição.

A mudinha ficou uns dias, ainda na caixinha de leite, sob o escaldante sol do sertão baiano. Não morreu, pois sua espécie é resistente, necessita disso. Agora, vejam como foi para fazer a transferência: mainha comprou um caqueiro, um vaso, como muitos preferem chamar, e fizemos a mudança. Essa ocorreu bem, pois a planta foi inserida totalmente, com toda a terra que trouxera do antigo lar, numa cova previamente aberta conforme as medidas da caixinha de leite.

— Mainha, essa planta tá pendendo, precisa de umas estacas pequenas. Vou colocar, viu? — falei.

Coloquei umas estacas feitas de palitos de bambu e amarrei delicadamente. Ficaram lindos os galhinhos bem suspensos.

Assim ficou por um tempo, mas como tudo é feito para desenvolver, a plantinha tinha muito a dar, mas pouco espaço lhe era oferecido. O caqueiro era pequeno, ela precisava de um maior. Compramos um maior.

— Vai morrer, tenho certeza que vai morrer; planta não se deve ficar plantando e replantando toda hora não — disse mainha recordando-se das orientações dadas por minha avó.

— Quieta, falando desse jeito é que a bichinha vai morrer, de tanto gosto ruim que tu colocas — disse eu.

— Mas vai…

— Mainha, cala a boca, pelo amor de Deus. Desse jeito é tu que vais matar a planta, de tanto falar.

Mudamos a Bougainville para o seu novo lar. Grande o caqueiro, lá ela poderia crescer, florescer, encantar-nos com suas belas folhas e flores.

No dia seguinte, a planta amanhece murcha. As folhinhas chegaram a engelhar, todas tristonhas.

— Eu falei que iria morrer — declarou mainha.

— Não fala isso perto dela não, moça; não vai morrer, ela vai viver melhor aí, só precisa se adaptar. Tem que continuar cuidando — respondi.

No dia seguinte, a mesma coisa: a pobrezinha murcha e desfalecida.

Com dois dias passados, surpresa: amanhece renovada, plena, com suas folhinhas verdes cintilantes, com aquele brilho que só uma folha nova possui. Ela só precisava disso: amor e espaço, e um lugar para se desenvolver.

Hoje cedo, quando passei por ela, senti um sinal de gratidão: na ponta do seu galho, voltado em direção ao meu quarto, uma flor, a primeira, começava a desabrochar.

João Marcos Fernandes Fagundes Neves

Graduado em Filosofia; escritor do blog e da página literária Café e Contemplação.
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