Resultados falso-negativos de exames da COVID-19 podem levar a uma falsa sensação de segurança

Por Fabiana Moreno Rosa/ Sherlock Communications

 

ROCHESTER, Minnesota — À medida que os exames da COVID-19 se tornam mais amplamente disponíveis, é crucial que os profissionais de saúde e autoridades de saúde pública entendam seus limites e o impacto que resultados falsos podem ter na tentativa de conter a pandemia. Um artigo especial publicado na Mayo Clinic Proceedings chama atenção para o risco de confiar demais nos exames da COVID-19 na tomada de decisões clínicas e de saúde pública. A sensibilidade do exame de reação em cadeia da polimerase via transcriptase reversa e as características de desempenho do exame em geral ainda não foram relatadas de forma clara ou consistente na bibliografia médica, segundo o artigo.

Consequentemente, as autoridades de saúde devem esperar uma “onda menos visível de infecção oriunda de pessoas com exames com resultados falso-negativos”, disse Priya Sampathkumar, M.D., especialista em doenças infecciosas da Mayo Clinic e coautora do estudo.

“O exame de reação em cadeia da polimerase via transcriptase reversa é mais útil quando o resultado é positivo”, disse a Dra. Sampathkumar. “Ele é menos útil para excluir a possibilidade da COVID-19. Um teste negativo geralmente não quer dizer que a pessoa não tenha a doença, e os resultados dos exames precisam ser considerados no contexto das características e exposição do paciente.”

Mesmo com uma sensibilidade do exame que chega a 90 por cento, a magnitude do risco associado a resultados falsos será considerável, à medida que o número de pessoas testadas cresce. “Na Califórnia, estima-se que a taxa de infecção pela COVID-19 pode passar dos 50 por cento até meados de maio de 2020”, ela afirmou. “Com uma população de 40 milhões de pessoas, 2 milhões de resultados falso-negativos são esperados na Califórnia após a realização abrangente dos exames. Mesmo que apenas 1 por cento da população fosse testada, 20 mil resultados falso-negativos seriam esperados.”

Os autores também mencionam os efeitos nos profissionais de saúde. Se a taxa de infecção pela COVID-19 entre as mais de 4 milhões de pessoas que prestam serviços diretamente aos pacientes nos EUA fosse de 10 por cento (muito menor que a maioria das previsões), mais de 40 mil resultados falso-negativos seriam esperados, se todos os profissionais fossem testados.

Isso constitui um risco para o sistema de saúde em um momento crucial. “Atualmente, as diretrizes do Center for Disease Control and Prevention (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) para profissionais de saúde assintomáticos com exames negativos poderia levar ao retorno imediato desses profissionais ao trabalho no atendimento clínico de rotina, com a possibilidade de espalhar a doença”, disse Colin West, M.D., Ph.D., médico da Mayo Clinic e principal autor do estudo. Victor Montori, M.D., um endocrinologista da Mayo Clinic, é outro coautor.

Enquanto lidamos com a enormidade da crescente pandemia da COVID-19, é importante que as autoridades de saúde pública se guiem por princípios de raciocínio empírico em relação aos resultados de testes diagnósticos e falso-negativos. O artigo da Mayo Clinic faz quatro recomendações:

  • Adesão rigorosa e contínua ao distanciamento social, lavagem de mãos, desinfecção de superfícies e outras medidas de prevenção, independentemente do nível de risco, sintomas ou resultados de exames da COVID-19. Pode ser necessário que todos os profissionais de saúde e pacientes usem máscaras.
  • O desenvolvimento de testes de alta sensibilidade ou combinações de testes é necessário urgentemente, a fim de minimizar o risco de resultados falso-negativos. Um exame de reação em cadeia da polimerase via transcriptase reversa e ensaios serológicos aprimorados (exames de sangue que identificam anticorpos ou proteínas presentes quando o corpo está reagindo a infecções, como a da COVID-19) são necessários.
  • Os níveis de risco devem ser avaliados cuidadosamente antes da realização dos exames, e os resultados negativos devem ser considerados com cautela, principalmente no caso de pessoas em grupos de risco maior e em áreas onde a disseminação da infecção pela COVID-19 já foi confirmada.
  • Protocolos estratificados por nível de risco para administrar os resultados negativos do exame da COVID-19 são necessários e devem evoluir à medida que mais estatísticas forem sendo disponibilizadas.

“Para indivíduos que realmente são de baixo risco, resultados negativos podem ser suficientemente tranquilizadores”, disse o Dr. West. “Para indivíduos de risco maior, mesmo que não tenham nenhum sintoma, o risco de resultados falso-negativos exige medidas adicionais de proteção contra a disseminação da doença, como um autoisolamento prolongado.”

Na Mayo Clinic, o exame de reação em cadeia da polimerase via transcriptase reversa é “um dos diversos fatores que levamos em conta ao decidir se o paciente satisfaz os critérios da COVID-19”, afirmou a Dra. Sampathkumar. Se o exame de reação em cadeia da polimerase via transcriptase reversa der negativo, mas os resultados de um raio X do tórax ou uma tomografia computadorizada forem anormais, ou caso a pessoa tenha tido contato com alguém com diagnóstico confirmado da COVID-19, a recomendação é continuar tratando o paciente como se ele tivesse COVID-19.

“Temos que continuar a refinar os protocolos para pacientes assintomáticos e profissionais de saúde expostos”, acrescentou a Dra. Sampathkumar.

Foto de Capa: Pixabay.

Jornal do Sudoeste

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